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Uma Ação Ampliada da Saúde Através da Contação de Histórias

O objetivo deste estudo é descrever o referencial teórico-metodológico da prática de humanização e promoção à saúde por meio de um programa de rodas de contação de histórias e apresentar uma síntese dos resultados das fichas de avaliação.

O programa é desenvolvido pela Casa do Contador de Histórias (CCH), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público criada em 2003, em Curitiba. O cenário desta prática são nove instituições parceiras sociais, que desenvolvem ações de saúde, algumas vinculadas ao Sistema Único de Saúde e privilegia as práticas alternativas e complementares.

O público atendido são crianças e adolescentes com paralisia cerebral severa, adolescentes femininas em regime prisional, adultos com problemas psiquiátricos leves e complexos, com doenças crônicas e graves, portadores de HIV/AIDS, albergados masculinos com problemas de alcoolismo.

Nos últimos sete anos foram envolvidos cerca de 50 voluntários contadores de histórias, com 754 ouvintes/mês, 860 histórias/ano e 292 fichas de avaliação/ano. O referencial teórico baseia-se na antroposofia, fundada por Rudolf Steiner, no conceito mitológico da trajetória do herói de Joseph Campbel, na psicologia profunda de Carl Jung.

A metodologia empregada consiste na oferta de um “cardápio” amplo de histórias e na aplicação de fichas de avaliação registrada pelos contadores, os quais recebem treinamento e supervisão sistemática. As rodas de contação acontecem com frequência semanal ou quinzenal, com 1 hora e meia de duração.

As atividades se dão em círculo numa sala ampla, com atividades de centramento com exercícios de respiração, seguido da contação de histórias. Após, segue-se ao mitodrama – uma reflexão sobre o aprendizado da história, e fechamento com a explicitação da intenção para reflexão dos conteúdos durante a semana.

A leitura sistemática das fichas de avaliação, da observação dos contadores, indica no âmbito do “ouvinte”, melhor aceitação da condição de saúde, descoberta dos padrões repetitivos e negativos das doenças, expressão de sentimentos, identificação dos ensinamentos dos contos, descoberta de recursos internos como perseverança, determinação, gratidão e compaixão, permitindo solucionar seus conflitos e dramas. Os sinais corporais identificados foram calma nos movimentos físicos, postura ereta, respiração tranqüila.

No âmbito do contador identifica-se uma percepção mais aguçada dos processos subjetivos do ouvinte e de si, além de desenvolver uma atitude compassiva e humanizada com relação aos problemas sociais. No âmbito institucional desenvolveu-se uma melhor compreensão e percepção da complexidade dos problemas que envolvem as ações de saúde, constatam que as histórias ajudam a melhorar as relações entre os ouvintes e a situação dos sintomas emocionais do indivíduo assistido.

Conclui-se que a prática da contação de histórias na saúde é uma ação que proporciona uma redução do stress e ansiedade inerentes a estes processos e ambientes institucionais.

Martha Teixeira da Cunha é psicóloga, arte-educadora, consultora em organizações e contadora de histórias. Graduada em Psicologia pela UFRJ. Especialista em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz/RJ. Especialista em Arte-Educação pela Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro/RJ.

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